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Santiago

João Moreira Sales / 2007



Quem já queimou tardes de verão a beber groselha e a ler policiais de pacotilha sabe que, no final, o culpado é invariavelmente o mordomo. O fiel e aperaltado sacana do mordomo. Esse desfecho pode ser pobre como artifício narrativo, mas oferece uma previsibilidade à trama, que é também uma forma de consolo para aqueles que desejam escapar, por momentos, às complicações do mundo. E não há ninguém que não queira escapar, por momentos, às complicações do mundo. Assim somos: estranhos mamíferos com apego tanto ao fogo de aguardente velha na língua como aos gelados da nossa infância, ocupando praças e ruas, mas mal contendo o desejo de descalçar os sapatos no regresso a casa, depois da borrasca, e encontrando mais aconchego do que dor em magoar o pé sempre na mesma perna do mesmo móvel. Ao contrário do que apregoam os evangelizadores da fuga à rotina e aos lugares de conforto, nem todo o prazer decorre da surpresa. O aborrecimento e a felicidade surgem também juntos, com frequência, quando ouvimos algum dos nossos melhores amigos repetir a sua história predilecta. Em certos casos, pela oitava, pela vigésima santíssima vez. Os melhores amigos de Santiago, mordomo da família Moreira Salles, nunca lhe devem ter dado essa alegria, pois eram quase todos aristocratas de outros tempos: os Medici de Florença, os Gonzaga de Mantua, os Este de Ferrara, os Bentivoglio de Bolonha, os Visconti e os Sforza de Milão, Lucrecia Borgia. Gente morta e enterrada, mas cujas linhagens e aventuras ele estudava, em bibliotecas, fantasiando as intrigas que teriam animado castelos e palácios, em França, em Itália, nessas longitudes esplêndidas onde tudo se organizava em torno da beleza. Para que nada se perdesse, Santiago foi compilando as suas descobertas em folhas escritas à máquina e atadas em pequenos montes com uma fita vermelha que ele encomendava de Paris, até encher as prateleiras de um móvel da casa onde viveu, sozinho, durante os derradeiros anos. Santiago buscava, no passado, aquilo que as pessoas optimistas, e as pessimistas depois de dois copos de vinho, esperam do futuro: uma vida melhor. Nesse recuo permanente de décadas e séculos, intui-se uma tímida recusa das burocracias e das pulsões da idade adulta, uma incapacidade de lidar com a realidade nem sempre vibrante, embora na mansão dos Moreira Salles houvesse grandes salões, um piano, e banquetes onde se cruzavam algumas das maiores figuras da elite brasileira, propiciando a Santiago uma experiência muito distinta do ramerrame quotidiano a que meio mundo está condenado (Walter Moreira Salles, pai do documentarista João, foi diplomata e um dos maiores banqueiros do Brasil).

Nem Santiago, com a serenidade treinada da profissão, nem nenhum coleccionador, por mais ansioso que seja, algum dia ambicionou completar, de uma só vez, a sua colecção, ou dormir uma sesta infinita à sombra das suas conquistas. O propósito pode ser de pouca relevância - juntar autocolantes, ímans de frigorífico, guardar bilhetes de cinema, postais antigos, pacotes de açúcar da Bulgária -, mas a tarefa de recolha e a estratégia para encontrar o que falta, se bem articuladas, permitem ir adiando a morte e outras chatices. Engana-se quem julga que os coleccionadores dedicam muitas horas ao seu passatempo porque pretendem derrotar o tédio. Nada disso os espevita. A maioria das colecções é ainda mais entediante do que a vidinha (pacotes de açúcar da Bulgária?). Sobretudo para os militantes de longa data, que já nem sequer se podem valer da energia dos começos. No fundo, interessa-lhes menos encontrar uma ocupação hoje do que saberem-se ocupados amanhã. Um apetite bastante humano e universal, valha a verdade. Sem o método que obsessivamente utilizava na composição do seu arquivo, talvez Santiago tivesse enlouquecido entre os barões e as condessas da sua imaginação. Santiago era delicado. Santiago gostava de boxe.

Griffith defendeu, num dichote mais tarde repescado por Godard e agora reproduzido em cada domicílio fiscal, que para um filme de sucesso basta uma miúda e uma arma. E se a actriz for bem escolhida, uma miúda chega perfeitamente para dar conta do recado (não disse Griffith, não repetiu Godard). Ela própria se confundirá com o perigo e com a aventura, encontrará os seus próprios sarilhos, uma vida formidável. Certo e sabido é que, para o sucesso, ninguém sugere mordomos. Culpados ou inocentes. Muito menos mordomos que ouçam ópera e toquem castanholas. De todas as personagens de eleição de Santiago, a sua preferida era Francesca de Rimini, eternizada por Dante, que lhe deu “uma voz, um nome, um tormento”. Dante parece precisar de mais do que Griffith recomenda para levar a água ao seu moinho. Uma voz, um nome, um tormento (bem vistas as coisas, está aqui uma lista de três pesadas linhas). E no entanto, conhecendo nós o fim trágico de Francesca, trespassada pela espada do seu marido despeitado, que jeito lhe teria dado uma arma.


Daniel Marques Pinto