Licorice Pizza 

Paul Thomas Anderson / 2021



Se a natureza dos contratempos não muda (e normalmente muda), há pelo menos um elemento que se altera da primeira juventude para a vida adulta: um adulto, contrariado ou conivente, experimenta sentado grande parte dos seus problemas, enquanto um adolescente é apanhado quase sempre em movimento, entre um sítio e outro, entre um presente movediço e um futuro que não acaba. Sem a permanente correria de Alana e Gary, Licorice Pizza quase que poderia ser uma história de gente maior e triplamente vacinada. Gary Valentine, apesar dos seus quinze anos, tem a audácia e os recursos para fundar empresas (um pouco loucas mas não o suficiente para surgirem aos nossos olhos como meras brincadeiras), reserva mesas em restaurantes finos onde é reconhecido e tratado com deferência, por todo o lado é acarinhado por cidadãos respeitáveis e por estrelas do showbusiness, participa em filmes, é divertido e insolente sem perder a doçura, e mostra-se mais afoito do que tímido e inseguro. Não vive atormentado no quarto ou desajustado no mundo. Para a idade, junta à pequena fama que lhe coube em sorte, um considerável proveito. Alana Kane, um pedaço mais velha do que ele, já para lá dos vinte, tanto se junta ao bando dos miúdos como ao político de trinta ou quarenta, que também poderia ter cinquenta ou sessenta. Nem sequer a relação entre os dois, desequilibrada pela diferença de idades, é tratada verdadeiramente como um amor de juventude. O afastamento mais significativo do universo dos adultos acontece através duma faceta subtil, e ao mesmo tempo nada subterrânea, do comportamento deles: durante as duas horas do filme, Alana e Gary fazem tudo o que podem para que os problemas não os apanhem sentados, ou, no pior dos cenários, os apanhem sentados num camião sem combustível a descer uma colina de Los Angeles. Não é portanto pelos temas que Licorice Pizza nos conquista o coração selvagem mas pelo fervor de um punhado de personagens que não param quietas. E elas mexem-se como algumas pessoas se mexiam nos anos 70: de fato branco ou de vestido leve, o que, convenhamos, tem alguma pinta. Sobretudo para nós aqui, ainda com a lembrança fresca dos trajes sem charme do nosso confinamento, e a uma distância considerável do sol californiano.

Paul Thomas Anderson forjou o filme a partir das suas recordações de infância e de juventude, e utilizando episódios relatados por amigos e pelos actores. No entanto, a verdadeira ligação a esse tempo faz-se através de uma atmosfera e de um ritmo narrativo que emulam a imperfeição atrevida da juventude, da juventude daqueles anos, mais voltada para a rua, e não tanto pela precisão dos acontecimentos. É sintomático que Thomas Anderson tenha escolhido para título duas palavras sem qualquer relação com as personagens ou com os lugares do filme. Como o próprio contou em entrevistas, Licorice Pizza era o nome de uma cadeia de lojas de discos na Califórnia do Sul, quando o realizador não passava de um miúdo, e usá-lo de forma tão despudorada, sem ligação óbvia à trama, deve ter-lhe permitido uma visita mais livre e afectiva ao passado, respeitando uma hierarquia pessoal de memórias, sem se subjugar a fidelidades de outra índole. E mais espanta, revelando a genialidade do título, que Licorice Pizza funcione também para quem nunca viveu no Valley e nunca antes ouvira falar nas tais lojas de discos. Há qualquer coisa na sonoridade insinuante de Li-co-ri-ce-Pi-z-za que nos aguça os apetites e que deixa as nossas fantasias num ponto óptimo de fermentação. Mesmo considerando apenas o potencial tipográfico em jogo, torna-se difícil ser aborrecido tendo à mão duas palavras tão boas. Licorice. Pizza. Meio cartaz está feito. Meio genérico arrumado. E com tanta sedução à distância, talvez só uma pessoa muito austera tenha conseguido entrar no cinema sem estar já um pouco conquistada, pronta para uma grande desilusão ou para uma paixão verdadeira. Um estado vulnerável que o filme trata como um tesouro a preservar, sem o resolver, oferecendo ao espectador uma esplendorosa mistura de aventuras e promessas, de colchões de água e noites de pinball.

Daniel Marques Pinto