Light Sleeper  

Paul Schrader / 1992 



Tal como nas calamidades pessoais, também num filme, mais importante do que saber como as coisas começam, é saber como elas acabam. E não me refiro às últimas cenas, ao desenlace. Falo dos créditos finais, já com os actores desaparecidos em combate. Embora os jornais e as abençoadas salas de cinema insistam na redacção, habitualmente confusa e desajeitada, de sinopses, o mundo seria menos cinzento se esses resumos da trama fossem substituídos pela menção dos nomes atribuídos pelo realizador às suas personagens secundárias. Peneirando os créditos finais de Light Sleeper, podemos encontrar um trio de luxo formado por um “Theological Cokehead”, um “Young Cuban” e um “Retro Yuppie”. Há também um “Maitre D’”, um “Jealous”, um “Manuel”, um “Guidone” e, para compor o ramalhete, umas imprescindíveis  “French Girls”, uns “Baseball Card Fans” e um “Stunt Cabbie”. Sem nenhuma outra informação adicional, qualquer pessoa saudável, ou com as doenças certas, consegue intuir a atmosfera do filme. A preponderância que os devotos da sinopse atribuem à história só afasta os potenciais espectadores, que preferem ser seduzidos pelo mistério de uma boa lista de promessas. A partir de uma súmula de acontecimentos e intenções, o mais extraordinário que nos pode acontecer é a descoberta de um interesse por um filme que nunca vimos. Para desejarmos ver esse filme, nada melhor do que um aperitivo entre sombras. Morte à sinopse. Vivam os créditos finais.

As virtudes do genérico de abertura são de outra natureza. Os primeiros minutos de uma longa-metragem, se bem engendrados, arrancam-nos da sala escura, levam-nos pela mão até um lugar improvável e, logo de seguida, sem meiguices, deixam-nos lá abandonados à nossa sorte, longe do ninho. Quando, aos 90 segundos, Williem Defoe aparece no banco traseiro de um carro, eu, apesar de ter lanchado em Cedofeita e de ter os meus móveis por perto, já vivo em Nova Iorque e, se abrir o vidro, reconhecerei os cheiros das avenidas onde, daqui a nada, gastarei uns valentes dólares em farras com os meus amigos do submundo. É assim que funciona.

Em Light Sleeper, os traficantes chegaram aos quarenta e estão cansados de quase tudo. De ouvir as histórias dos clientes pedrados, de combater os perigos da vida nocturna. Onde dantes havia glamour, intensidade, há apenas bares repletos de pessoas escandalosamente mais novas, e música de dança na qual, a todo o momento, um saxofone ameaça entrar (e às vezes entra). John LeTour (interpretado por Williem Defoe) quer converter-se em produtor de música, e a sua chefe e parceira de crime (uma Susan Sarandon vestida por Armani) ambiciona abandonar o negócio da cocaína para dedicar-se aos cosméticos. Felizmente, embora saibamos pouco do passado da dupla, they will always have Paris. LeTour tem problemas de sono e, pela madrugada, escreve a caneta num diário. A certo ponto, o reencontro com uma antiga namorada muda-lhe a vida. Mas, à superfície, muito pouco: agravando-lhe os problemas de sono e oferecendo-lhe algumas obsessões suplementares para o diário. O sorriso de Williem Defoe é perfeito para a personagem pois tanto transmite doçura como indicia uma ansiedade escondida, um homem capaz de aniquilar as nossas famílias por causa de uma irritação no trânsito.

Light Sleeper está longe de ser uma obra-prima e apresenta duas ou três soluções narrativas bastante preguiçosas. Mas quem me dera que, na maior parte do cinema americano das últimas décadas, entre o genérico de abertura e os créditos finais, houvesse um filme assim
 
 
Daniel Marques Pinto