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Il giardino dei Finzi-Contini

Vittorio De Sica / 1970



 One can only accept there is no reliable way of converting the disadvantages of amateurism into the rewards of heroism.
Bernard Williams, Shame and Necessity

Porque gostamos tanto, qual a atracção irresistível de O Jardim dos Finzi-Contini? Esta pergunta vale mais para o livro, que, embora literariamente banal, é narrativamente muito sedutor, do que para o filme, que não chega a ser medíocre mas é mais afirmativo, perdendo assim a principal qualidade da obra: a ambiguidade proveniente das questões deixadas em aberto, a complexidade emocional gerada pela imaturidade dos protagonistas. 

Será pelo charme nostálgico das oportunidades perdidas? Por recordarmos o beijo que não demos a uma fille aux cheveux de lin na atmosfera onírica de um jardim, confundidos pelo intenso aroma das árvores? Por não conseguirmos esquecer a hesitação fatal, na borda de um campo de ténis decadente, quando, dominados por um torpor agradável mas paralisante, receamos perverter a doçura emoliente de uma tarde estival? Ou pela memória da ressaca desse acto falhado e definitivo, da agitação e angústia por ele criadas, a nossa cobardia reflectida na sombra taciturna de um cedro-do-líbano, consagrada junto à nossa inultrapassável muralha dos anjos, no centro do nosso vert paradis des amours enfantines? A nossa fatalidade provavelmente não ocorreu debaixo de guarda-sóis de gomos vermelhos e azuis, à volta de uma mesa repleta de vol-au-vent e buricchi, enquanto bebíamos skiwasser e discutíamos Benedetto Croce; o momento decisivo pode ter sido no carro, num beco, à porta do metro, e não numa esquecida caleche fin de siècle ou no banco traseiro de um imponente Dilambda; mas, tal como Giorgio, temos a suspeita de que as primeiras marcas do trilho que nos guiou ao local (emocional e existencial) que hoje habitamos podemos encontrá-las numa decisão semelhante. E se?, perguntamos com Giorgio.

Os Finzi-Contini são uma família judia de Ferrara, e a trama desenvolve-se no período entre guerras (twenty years largely wasted, the years of l'entre deux guerres). No entanto, o factor que os diferencia dos seus conterrâneos não é meramente religioso, é sobretudo de classe. Maltane, o intelectual socialista gói, e Giorgio, o judeu literato aspirante a poeta, dois frequentadores da casa, amigos de Micol e Alberto, são acima de tudo plebeus, atraídos pelo acesso a um meio aristocrático. Embora a família Finzi-Contini seja religiosa, a relativa indiferença com que encaram a ascensão do fascismo aproxima-os do tipo de judeus que Hannah Arendt descreveu como too enlightened to believe in God [but] superstitious enough to believe in themselves. Talvez o crescimento do anti-semitismo seja uma ameaça, mas eles sentem-se acima desses prosaísmos. Afinal, se há judeus, como Giorgio, expulsos do clube de ténis e da biblioteca, por serem judeus, os Finzi-Contini têm um campo de ténis e uma extensíssima biblioteca em casa. No seu castelo encantado, a vida prossegue como dantes. A sua confiança é a sua vulnerabilidade. A sua vulnerabilidade será a sua perdição.

Para lá do erro de dar como certo qual o preciso objecto responsável pela convulsão emocional de cada protagonista (duvidamos que os próprios soubessem), algo que o livro apenas sugere, De Sica não consegue filmar o drama e guiar os actores com o naturalismo que a história pedia. As relações humanas, há um século, eram com certeza mais formais, mas o formalismo aqui é demasiado teatral. As cenas mais intensas do filme, entre Micol e Giorgio, Alberto e Maltane, Giorgio e o pai, parecem dizer: caros espectadores, vejam como este momento é trágico! A intensidade dramática, o crescendo, chegam a ser ridículos. O realizador está em permanente overacting: a câmara está sempre demasiado próxima dos acontecimentos, concretiza, foca, indica, e rouba-nos o cenário panorâmico onde interagem as forças (emocionais e sociais) em jogo, quando boa parte do fascínio da história é o ambiente e o tempo histórico em que decorre, como a colisão do fascismo reorganizou e por fim destruiu um mundo que a ele se julgava imune.

Mas a história contém uma força que supera o meio e a forma como é contada. No final, continuamos a sentir o tormento e a mágoa de Giorgio, os erros e as dores de crescimento irredimíveis do nosso herói falhado, poeta amador, sobrevivente melancólico de um mundo que foi ao mesmo tempo gracioso e sinistro. E continuamos a amar todo esse mundo desaparecido, a família Finzi-Contini, os amigos que se reuniam para jogar ténis no seu jardim, Ferrara, Milão, Veneza, Itália, da mesma forma que amamos o nosso passado. Toda a gente ama o que perdeu. 


Pedro Ramires