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Divino Amor 

Gabriel Mascaro / 2019



No princípio, era a escuridão e ninguém andava de calções. Depois, tudo se alterou. Embora a ideia inicial de Nanni Moretti fôsse colocar as personagens numa sala de cinema, Palombella Rossa acabou por ser rodado numa piscina, durante um jogo de polo aquático. Moretti abandonou o seu projecto inicial porque, nesse ano, em Itália, surgiram vários filmes cuja acção decorria em salas de cinema, entre eles o celebérrimo Cinema Paraíso. Joseph Heller teve um problema semelhante com o título do seu livro mais famoso. A primeira opção, Catch-18, foi abandonada devido à publicação do romance Mila 18, e a opção Catch-11 descartada por semelhança com o título do filme Ocean’s Eleven. Após elaboradas ponderações, em que 14 foi considerado um número sem graça, autor e editor apostaram as fichas todas em Catch-22. A piscina de Palombella Rossa parece-nos agora indissociável do filme de Nanni Moretti, e «Catch-22» tornou-se até uma expressão popular em língua inglesa, rivalizando com a igualmente famosa «situação kafkiana», também ela de origem literária, mas a verdade é que ambas as soluções resultaram de respostas a incontroláveis contingências. Atendendo a estes e outros precedentes, foi uma sorte dos diabos não ter surgido, no ano de rodagem, uma novela da Globo que obrigasse Gabriel Mascaro a abandonar o título do seu último filme. Correram-se riscos.

O enredo de Divino Amor decorre no futuro, mas não num futuro longínquo em que todos estaremos sete palmos debaixo de terra ou impecavelmente congelados num frigorífico de Los Angeles. Segundo o que nos informa a voz - infantilizada por uma distorção digital - do narrador, aquela é a vida das pessoas em 2027, um ano em que, se as coisas correrem bem, ainda cá andaremos, mais ou menos finos, a gastar os Sábados de manhã no ginásio, tentando trazer de volta o nosso corpo de 2019, que hoje desprezamos. Nesse ano de 2027, o carnaval já não é a festa mais importante do Brasil, mas os cidadãos continuam a irritar-se em repartições e a ameaçar funcionários com hipotéticas denúncias a seres hierarquicamente superiores. Como sempre suspeitei: é mais forte o samba de quem reclama do que o samba de quem dança. E, em 2027, perante formulários por preencher e obstáculos processuais, ninguém mantém a calma, por amor de Deus. No resto, também quase nada muda, embora a abundância de neons azuis e cor-de-rosa dê às ruas e casas um charme cosmopolita e vagamente exótico. No futuro imaginado por Gabriel Mascaro, tal como agora neste presente pálido, algumas pessoas insistem em morrer e há umas quantas que resistem a nascer. Danilo, que faz arranjos de flores para funerais, ocupa-se das primeiras, e Joana, a sua mulher, desespera com as segundas porque deseja um filho que não chega, apesar das inúmeras tentativas do casal, várias delas à nossa frente.  Nalgumas das melhores cenas do filme, muito por causa de uma fabulosa capela drive-in, Joana confronta o pastor evangélico com essa injustiça de Deus, que parece não atender o seu desejo de engravidar. Enquanto Joana se vira para os céus à procura de resposta, na terra é Danilo quem carrega a cruz, todos os serões, pendurando-se num aparelho bizarro, de cabeça para baixo, como um frango de aviário, e oferecendo-se a uma luz vermelha apontada à sua desprotegida e desanimada genitália. Quer Danilo, quer Joana, mostram fé no poder do altíssimo, mas começam a suspeitar que, sem a ajuda de tecnologia asiática para combater a infertilidade, Deus não completará aquela missão. O coração dos homens é grande e generoso, e acolhe tanto a Bíblia como as compras online. Sem esquecer os prazeres da carne, pois Divino Amor revela-se uma seita que tanto confia na palavra de Deus como na troca de casais. Há no filme uma certa provocação ao fazer da igreja uma espécie de clube de swing para devotos. No entanto, sendo evidente a paródia e a crítica, Mascaro reconhece na igreja evangélica, ao filmá-la numa atmosfera pop, uma capacidade de adaptação às dinâmicas sociais e culturais que outras religiões não desenvolveram tão a fundo, confiantes na sua supremacia teórica. Este é um fenómeno global mas que no Brasil ganha uma amplitude desmesurada. Mesmo nas confissões mais tradicionais, os brasileiros sempre foram atreitos, para o bem e para o mal, a uma dimensão física da experiência religiosa, em contraste com os europeus para quem a espiritualidade assume uma natureza algo abstracta. 

No seu local de trabalho, Joana tenta humanizar a burocracia, aconselhando os casais desavindos a não se precipitarem para o divórcio. Às vezes, o seu conselho dá frutos; outras vezes, ela fracassa. O mesmo acontece com o filme de Gabriel Mascaro, que não acerta sempre no tom justo. Preparar uma intriga entre a ficção científica, a sátira política, e a pornochanchada brasileira, também não era tarefa fácil. Ainda assim, Divino Amor sobrevive com leveza às suas imperfeições.


Daniel Marques Pinto