Cinzas e Diamantes 

Andrzej Wajda / 1958



Por obediência a velhos preceitos ou por uma compreensível inclinação por uma certa economia narrativa, tendemos a entender a história, seja ela pessoal ou política, como uma sucessão intermitente de tempestades gloriosas e de intervalos de bonança. Ao brilho segue-se a penumbra. Ao conflito, o sossego. Como se houvesse sempre uma assinalável pausa antes de qualquer nova aflição ou novo entusiasmo. Essa arrumação artificial ajuda-nos a evitar um talvez desnecessário novelo de dificuldades e a desenhar melhor a linha do tempo, mas também nos afasta de uma verdade crua e simples: não existem períodos de paz. Já será uma sorte se enfrentarmos apenas uma guerra de cada vez. Em Cinzas e Diamantes, ninguém tem essa sorte.

Personagem central e principal elemento transgressor do filme, o jovem Maciek congrega, nos seus desígnios, grande parte das tensões duma Polónia ocupada pelas tropas soviéticas, logo à saída da segunda guerra mundial, ao mesmo tempo que vai equilibrando como pode as suas angústias mais íntimas. É um papel difícil que ninguém que tenha visto Cinzas e Diamantes pode imaginar interpretado de outra maneira. Nenhum dos habituais processos de decantação ao dispor da nossa fantasiosa cabeça conseguiria separar o actor de tudo o resto sem alterar a substância do filme. Embora um determinado tipo de analogias deva ser usado com parcimónia, de modo a proteger-nos do embaraço que sentimos, por exemplo, perante a classificação de Aveiro como a Veneza de Portugal, ou de Estocolmo como a Veneza do Norte (e consequentemente como a Aveiro Sueca), torna-se difícil não aceitar o título de James Dean Polaco para Zbigniew Cybulski. Os dois emprestam a mesma inquietude e o mesmo divertimento trágico aos seus papéis. Ambos movendo-se com a desarticulação de um adolescente, ainda sem as danças certas para o corpo, e com a intensidade de quem alberga os fantasmas de noventa vidas adultas. Para além do talento como actor, Cybulski teria provavelmente um considerável traquejo nas artes da persuasão, tendo levado à avante o propósito um tudo-nada insensato de usar, no plateau, as suas próprias roupas e os seus óculos de sol, apesar de um razoável desconcerto com a indumentária da época. Essa escolha algo arrojada, mas tolerada por Wajda, que pressentiu nela uma inusitada vantagem, confere à personagem uma faceta livre e aventurosa que, bem vistas as coisas, teria sido difícil de alcançar com um James Dean aprisionado numa roupa historicamente irrepreensível. Uma das características mais admiráveis do filme é, aliás, a forma como vai permitindo que as personagens se desviem amiúde da realidade para experimentarem, com notável desembaraço, uns segundos fora de tempo. E a realidade da Polónia, nos anos quarenta, não convidava propriamente ao aparecimento de fissuras poéticas. Ocupada a oeste pelos alemães, e a leste pela União Soviética, a Polónia foi forçada a conviver, ainda durante a guerra, com o nazismo e com o estalinismo. A discussão teórica sobre as semelhanças e as diferenças entre os dois regimes continua a animar discussões em vários pontos do globo, e na terra plana de alguns, mas, para os polacos que atravessaram os infernos de ambos, a habitual contabilidade comparada de desgraças deve parecer-lhes um jogo infantil ou a encenação de um fogo cruzado muito distante, uns riscos irrelevantes na paisagem.

Terminada a guerra, já sem alemães a dominar o território, alguns membros da resistência polaca vêem-se a braços com novas lutas. Incubido de assassinar um dirigente comunista, Maciek possui todos os traços de um idealista de coragem. Nada o assemelha a um convertido de última hora. E portanto, ele duvida. Também a personagem do dirigente comunista foge à simplificação do retrato, e não surge como mero representante dos interesses russos e da cartilha do partido. O seu idealismo, ainda que imperfeito, é um pouco mais alto. E portanto, mais instável. Maciek e Szczuka, cada um a seu modo, procuram resolver uma equação impossível naquele contexto, sonhando com um destino esplendoroso para a Polónia, e com uma vida normal, de prazeres simples, para eles. Szczuka ambiciona ver o filho, capturado durante actividades subversivas da resistência, e Maciek anda fisgado numa mulher, a empregada de bar do hotel onde tudo se passa e onde ninguém parece querer ou conseguir dormir. Nem Krystyna, que viu a família desaparecer durante a guerra, em Dachau e na insurreição de Varsóvia, nem Maciek, com o passado e o futuro misturados no mesmo nevoeiro de incertezas, conseguem descobrir uma forma de construir alguma história a partir daquele amor em formação. Eles sabem, embora só ela o assuma, que inclusive a memória do primeiro encontro será, em breve, comida para os cães porque os mecanismos primários de sobrevivência, activados por um luto apressado, não lhes permitem mais carga sobre os ombros. E as boas memórias também pesam.

Até ao fim, dança-se e bebe-se muito mais do que a conta. Na hora de fecho, a banda do hotel, já com demasiado álcool no sangue, é instigada a tocar, de improviso e seguindo as instruções de um hóspede sem discernimento para duvidar daquela empreitada, a Poloinaise Héroïque de Chopin. Mas os devaneios optimistas da noite transformaram-se já num baile decadente perante a luz da manhã. Em concordância com o mundo daquelas pessoas, a banda desafina e insiste.


Daniel Marques Pinto