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Caché  

Michael Haneke / 2005



Nas semanas anteriores, deixei crescer a barba. Chegado o momento, vesti umas calças de bombazine cor de vinho, uma camisola de gola alta de lã, preta, tirei uma garrafinha de jägermeister do frigorífico, peguei no isqueiro e nos cigarros, coloquei o dvd no leitor e sentei-me no cadeirão. Os seus filmes, para serem correctamente apreciados, requerem um determinado humor. Vestir a indumentária de um professor de filosofia continental, ostentar uma barba de quinze dias, mais o álcool e os cigarros, ajudam-me a calibrar o temperamento. Os meus globos oculares não se fixarão em planos extasiantes, não serão convidados, com certeza, a admirar arrojados travellings ou uma mise-en-scène composta de excelsos matizes, um mapa visual que exprima encanto com as possibilidades estéticas do cinema; mas a minha cognição e sensibilidade serão chamadas a esmiuçar um mal-estar, que emergirá nos primeiros planos, se alastrará como uma mancha às personagens, ao décor e à atmosfera, até deixar os espectadores desconfortáveis com a bruma negra que se forma na sala e ameaça consumi-los. Marca d’água: Haneke.

Em Caché, Haneke vai explorar a divisão classista e outras feridas por sarar entre dois célebres arquétipos: o parisiense bem– que vive entre as portas de Charenton e o Bois de Boulogne, altivo e consciente da sua posição social, sofisticação, bom gosto – e os franceses enxotados para os subúrbios – pobres, rejeitados, objectos de um infame desprezo e sobranceria de classe que, dada a composição étnica dos alvos, tem demasiadas vezes contornos racistas.

Na sua casa forrada de livros no 13º arrondissement, um casal parisiense, Georges (Daniel Auteuil) e Anne (Juliette Binoche) Laurent, começa a receber cassetes com vídeos de uma câmara apontada a sua casa. O primeiro deles coincide com o plano de abertura de Caché. Levanta-se uma interrogação particular – estamos na presença de um Peeping Tom (admirador(a) de Georges, que modera um programa televisivo dedicado à literatura), de uma janela indiscreta (vizinhos curiosos), de uma ameaça subliminar (mas de quem?) ou de uma mera brincadeira (talvez amigos do filho)? – e uma incógnita geral: em cada momento de Caché, nunca estamos certos de estar a assistir à narrativa, por assim dizer, linear do filme, ou às imagens dos vídeos dentro do filme (os tais que vão chegando a casa dos Laurent), uma vez que os planos podem coincidir. Para quem o vê em dvd, o início do filme, em que o casal assiste na sua televisão ao vídeo da primeira cassete, coincidente com as primeiras imagens de Caché, que tínhamos acabado de ver na nossa televisão depois de introduzir a cassete do filme, é um inesperado piscar de olho pós-moderno.

O aparecimento de mais cassetes é acompanhado por uma folha com um desenho sinistro: o esboço de uma criança vomitando sangue. Georges e Anne continuam a mostrar-se perplexos e angustiados com a funesta opacidade do mistério, mas nós começamos a desconfiar da ignorância dele: pelo filme irrompem, aqui e ali, pesadelos de Georges, o último dos quais culmina numa cena sangrenta protagonizada por uma criança na qual suspeitamos ter-se baseado a figura do desenho sinistro. O enigma revela-se um acontecimento que Georges julgava esquecido e resolvido para sempre: quando os caseiros da maison de champagne onde cresceu foram mortos numa manifestação contra a guerra na Algéria (o massacre de 1961, em Paris, onde morreram pelo menos 40 argelinos), deixando órfão o único filho, Majid, os pais de Georges decidiram adoptá-lo – mas Georges rejeitou a inserção do seu amigo na família e não descansou enquanto não o atirou para um orfanato.

As circunstâncias obrigam Georges a visitar Majid – precocemente envelhecido, manifestamente deprimido, vive num lúgubre e exíguo apartamento nos subúrbios de Paris – e a reconhecer (contrariado) perante a mulher a sua duvidosa conduta. O primeiro ele aborda com uma arrogância repugnante («Queres dinheiro, é?»); face à perturbada Anne, invoca a sua tenra idade à data dos factos para descartar uma eventual condenação dos seus actos. Majid afirma convincentemente – para nossa surpresa – não estar de forma alguma ligado aos vídeos e aos desenhos que infernizam a vida do casal Laurent, mas a pressão a que é sujeito e mais uma humilhação que lhe é imposta por Georges têm como consequência o seu suicídio. Contudo, o problema, entretanto, tornou-se intergeracional: o filho de Majid, em pessoa, como uma assombração, apresenta-se a Georges – tal como surgirá ao seu filho. Inverte-se o adágio de que o tempo tudo resolve: há problemas que o tempo ramifica e agrava, como uma ferida que infecciona.

No aspecto estrutural, o filme é uma alegoria política bastante óbvia. A acusação de Georges é a acusação da sociedade francesa, que só em 1998 reconheceu o massacre de argelinos em Paris e continua tão classista como sempre foi. Os vídeos e os desenhos que Georges recebe são a convocação para o seu julgamento, tal como Caché é o incitamento a que França assuma e discuta os seus erros, traumas e fantasmas. Porém, esquivando-se a filmar a esquemática e enfatuada ilustração da origem e consequências de um pecado, Haneke coloca a dúvida como elemento central do filme: Georges nunca é um personagem simpático e as suas acções agudizam e expõem problemas de carácter, mas não estamos certos de que um Georges com maior empatia fosse suficiente para resolver o problema, embora fosse com certeza necessário para um início de conversa.

No entanto, confrontado pelo filho de Majid, Georges recusa conversar e mostra-se irredutível na sua inocência. Ele não se permite o consolo da expiação, nem concede à família Majid o reconhecimento digno a um igual. Um pedido de desculpas, simbolicamente importante, consagraria uma evasão, uma reconciliação postiça? Talvez Haneke nos esteja a dizer que temos de ser capazes de mais, de ir para lá do simbolismo e da benemérita acção individual, de outro modo os pesadelos continuarão a visitar-nos de noite, até, um certo dia, nos baterem à porta. A mera penitência não absolve pecados desta gravidade.


Pedro Ramires