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Yama no Anata - Para além das Montanhas 

Aya Koretzky / 2011



Assim como Maupassant almoçava na Torre Eiffel todas os dias, não por amor ao monumento, mas por ser aquele o único lugar de Paris onde podia descansar sem ver a maldita torre, também muitos se mudam para o campo, não para encontrarem o seu paraíso bucólico, mas tão só para calarem de vez, pelo confronto com as inevitáveis desilusões, aquelas vozes interiores que, por volta das seis da tarde, clamam pela quietude campestre, reclamando da azáfama de um escritório que tarda em fechar ou do cansaço acumulado de um milhar de pequenas lutas na cidade. Uma vez instalados na casa ampla, entre montanhas, talvez a felicidade não chegue tão intensa como a antiga vontade de a alcançar, mas pelo menos a possibilidade de ser feliz noutro lugar deixará de ser um tormento. E isso já será algum sossego.

Há quem faça uma transição suave, experimentando pequenos períodos numa aldeia, colocando um pé num ribeiro, e só depois o outro, ou alugando um quarto junto a um parque natural e a um router wifi, e quem prefira uma mudança radical e abrupta. Henry David Thoreau pertenceu à segunda escola e dela se tornou uma espécie de emblema. Ao contrário de vários dos seus admiradores actuais, que usam o linguajar do empreendedorismo para celebrarem a forma como se desenvencilharam do mundo (“ganhei tempo, ganhei qualidade de vida”), Thoreau cruzou as exigências materiais do desafio, levantando, por exemplo, a sua própria casa e colhendo os seus alimentos, com ambições de natureza espiritual, que assentavam menos na transformação do que na contemplação atenta, na construção de uma riqueza “proporcional ao número de coisas que [se] deixa em paz”. Havendo nele também um impulso literário forte, não espanta que a experiência tenha dado um livro, o famoso Walden de 1854. Nele, Thoreau relata o tempo que passou sozinho no bosque, em redor do lago Walden, no estado americano do Massachusetts. Embora não morra de amores por parágrafos triunfais, Thoreau também não cai em miserabilismos envergonhados: “não proponho escrever uma ode ao desânimo, exibir-me-ei com tanta imponência como o galo da manhã, em cima do poleiro, quanto mais não seja para acordar os vizinhos”. Desta passagem se percebe que ele terá tentado conciliar, nas margens do lago, uma literatura de renúncia com uma literatura de combate. Deixando outra ainda de pousio: “No primeiro verão não li livros; tratei dos feijões”.

A história de Aya Koretzky é um pouco diferente, e começa numa decisão invulgar dos seus pais, quando ela tinha 9 anos e frequentava uma escola primária, em Tóquio. Desiludidos com a vida na grande cidade, o pai japonês e a mãe belga decidem procurar uma casa nos lugares mais recônditos do Japão, mas a proximidade de centrais nucleares e de bases militares vai eliminando potenciais domicílios. A tal ponto que o casal começa a ponderar alargar a busca a outros países. E de tanto riscarem locais inseguros, poluídos e caros, os pais de Aya Koretzky acabam por eleger uma quinta abandonada, perto de Coimbra. Aqui mesmo, em Portugal: o melhor país do mundo, excluindo todos os outros. Entre as nossas maravilhas não constava, contudo, o hábito de receber japoneses (no princípio dos anos 90 ainda nem o sushi tinha dado a esta costa) e com isso sofreu Aya, ao início, numa escola de província, vítima da crueldade das crianças e da criancice dos adultos. Yama no Anata é um documentário que se alimenta de um permanente vai e vem entre Portugal e o Japão, o presente e o passado, à custa de fotografias, cartas, vídeos amadores, relatos. Ao invés do que seria esperado, não há um mistério escondido que faça avançar o filme, ele não é necessário. Já há mistério que baste nas perguntas mais óbvias: porquê abandonar tudo? porquê a vizinhança do Mondego, do outro lado do planeta? Aya ouve as razões dos pais, e são essas que estão no filme, tal como as de Thoreau estão em Walden. Mas nós, os espectadores, os leitores, vemos e lemos também outras. Indefinidas, incertas, subrepticiamente infiltradas no discurso dos protagonistas. Não pode ser apenas o apelo da natureza que leva um casal a abandonar tudo para dormir sob o céu das Beiras, nem um homem complexo como Thoreau a completar um plano tão extremo. Talvez seja o desejo de aventura, a fuga a um destino, a um sofrimento, ou a resposta a uma inquietude impossível de conter. Ninguém sabe ao certo. O que resulta claro é que essa mudança não é nem o fim da monotonia (Thoreau confessa, numa frase curta, ao terminar o relato de mais de duas centenas de páginas do seu primeiro ano a viver nos bosques, que “o segundo ano foi parecido”), nem a derrota do animal social (quer Thoreau quer os pais de Aya mantiveram contacto com outras pessoas), nem o fim das contingências, da mecânica implacável do quotidiano (como é óbvio). Mas alguma suspensão da realidade em bruto deve funcionar para que Aya Koretzky, duas décadas depois, conclua, com uma serenidade satisfeita, que habitou, na infância e na adolescência, “um lugar que está entre este mundo e o outro, mas mais perto do outro”. E talvez sejam essas as melhores coordenadas para uma vida completa.


Daniel Marques Pinto