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Silvestre

João César Monteiro / 1981



De todas as formas enviesadas de fazer uma coisa certa, aquela que escolhemos, de um modo mais ou menos deliberado, acaba por definir um estilo, o nosso estilo. Escrever bem, filmar bem, ou viver bem é, em larga medida, irrelevante. Nenhuma alma deveria alimentar esse tipo de ambição, nem metralhar conhecidos e desconhecidos com as suas habilidades tão perfeitinhas. Quando Silvestre foi rodado, César Monteiro I, rei da sua própria juventude, ainda não era exactamente César Monteiro II, o grande. Mas para lá caminhava, com dois ou três passos largos de génio, e muitos outros curtos e tortos, deixando no filme uma marca de imperfeição, que a distância, e os filmes seguintes, transformaram em belos equívocos que já não envergonham ninguém. Um pouco como aquele penteado do diabo, descoberto numa foto antiga, e que aceitamos - sem outro remédio e, em simultâneo, com uma alegria serena -  como parte do que fomos e do que somos.

Inicialmente pensado para Trás-os-Montes, Silvestre acabaria por ser rodado em cenários de estúdio, assumindo um lado teatral explícito, e mostrando um evidente orgulho na componente artificial do décor. Nessas idas e voltas, o argumento viria a revelar-se ainda mais central no projecto. E que rico argumento. Escrito a duas mãos por Maria Velho da Costa e por João César Monteiro, cada página é um rebuçado. Um dos melhores passatempos literários para almas desocupadas seria adivinhar que frases são mais de Maria e quais são mais de João. Mas sendo a vida tão curta, avancemos uma boa hora assim, de mãos entrelaçadas, saltando, de forma irresponsável, o início da história.

Na segunda parte do filme, a protagonista Sílvia, uma donzela em idade casadoira e metida em encrencas, vê-se obrigada a cortar o cabelo e a esconder as suas curvas numa roupa de soldado, para não ser reconhecida por quem a persegue. Susana desconfia do plano por mil razões, incluindo uma bem especial: “Tendes nome de mulher, irmã, conhecer-te-ão”. Mas Sílvia responde a todas e também a essa: “Eu me chamarei Silvestre, por homem me tornarão.” Mais tarde, num novo episódio da farsa, um soldado malandro desafia Sílvia (para ele: Silvestre) a visitar a casa de duas burguesas cujos maridos mercadores se ausentaram por uns dias. Temendo ser descoberta, Sílvia aceita o convite sem hesitar: “Sabes ser calado? Como um morto. Gostas de mulheres? Como poucos”. E mesmo na casa, o disfarce de Sílvia sobrevive sem levantar suspeitas. Uma das mulheres mostra-se até bastante interessada nela. Nele. Perante o avançar da noite e da intimidade (como se não bastasse tudo o resto, os quatro “atascam-se de doces e vinho”), Sílvia decide abandonar abruptamente o lugar da festança, tal o medo de ser desmascarada. Desdenhada e sem perceber a razão daquela fuga, a mulher de quem o alegado Silvestre se aproximara durante tão pouco tempo, desabafa com a amiga: “mais fome dá este debicar do que jejuar deveras”. Isto é um achado em qualquer língua, mas, no português vagamente antigo que o filme adopta, a frase ganha um tom palaciano que a salva para todo o sempre da banalidade. De certa maneira, esta é a pré-história da linguagem que César Monteiro inventou, e que tem os seus próprios e inimitáveis canais para ligar a erudição ao linguajar das ruas e a um jeito português de acarinhar a má vida.


Daniel Marques Pinto