Peeping Tom 

Michael Powell / 1960



Para destruir com aparato a sua própria carreira, um ser humano dispõe, grosso modo, de duas alternativas: abraçar uma displicência absoluta ou ser absolutamente intransigente nos seus propósitos. A primeira costuma provocar uma atenção instantânea porque ninguém resiste à tentação de espreitar um bom acidente, mas é da segunda que a história costuma dar conta, se o autor do gesto se mostrar talentoso e não apenas casmurro. Quando Peeping Tom estreou, o filme recebeu tantos ataques da crítica e tantas recusas de distribuidoras que Michael Powell nunca mais voltou a receber simpatias da indústria cinematográfica britânica. Essa repulsa tão violenta pode ter prejudicado a vida profissional de Powell mas foi crucial para, muitos anos mais tarde, na América, e depois em todo o lado, transformar Peeping Tom, um filme maldito, num thriller de culto. Não há ausência prolongada que não ajude ao charme do regresso.

A ideia de fazer uma longa-metragem voyeurista sobre o voyeurismo talvez não nos pareça tão arrojada assim, agora que as câmaras de telemóvel são instrumentos de vigilância discreta e ferramentas de 150 gramas ao serviço do nosso narcisismo e do nosso fascínio por empratamentos, animais domésticos e desastres da vida alheia. No início dos anos 60, porém, a vontade de tudo registar em imagens era por certo uma perversão incomum, por falta de meios técnicos para levá-la adiante sem dar nas vistas ou morrer de cansaço, mas também porque as fronteiras entre o público e o privado estavam bem definidas e tinham pontos de passagem escassos e conhecidos, amplamente vigiados. Nesse ambiente, Mark Lewis, o protagonista de Peeping Tom, apresenta-se bem cedo como uma ave rara. Exceptuando os momentos em que, por contingências laborais, opera máquinas de estúdio, ele nunca se separa da sua câmara, levando-a constantemente a tiracolo ou segurando-a nas mãos. Em certa medida, para grande desgraça de todos os envolvidos na trama, ela é a parte mais viva, mais carnal, do seu corpo. Mesmo que a amputassem, uma dor fantasma subsistiria. E é com uma ponta aguçada do tripé dessa câmara que Mark perfura, sem um pingo de emoção, várias das mulheres que lhe confiam algum tipo de intimidade, enquanto as obriga a olharem-se num espelho montado sobre a lente e que torna ainda mais sórdida aquela geringonça de ataque, numa reiterada e cruel tentativa de capturar o medo no rosto delas. A derradeira expressão de medo, pois Mark acumula com a loucura uma picuinhice metódica. Nem tudo lhe serve. Peeping Tom exibe de forma explícita quer a encenação dos assassinatos, logo desde a abertura, quer, mais tarde, as explicações freudianas para o comportamento desviante do assassino. Através de um flashback mal dissimulado à infância de Mark Lewis, percebemos as raízes dos seu traumas, dos seus fetiches sexuais, do seu sadismo ingénuo. Sem grandes subtilezas narrativas e pintado num technicolor esplendoroso, o filme transforma-nos em cúmplices de uma razoável lista de maldades, tanto pelo que vemos como pelo que sabemos. Mark pode culpar o pai. Nós, pelo contrário, temos de assumir sozinhos a nossa condição de espectadores, de voyeurs em terceiro grau.

Porventura, a cena mais elaborada de Peeping Tom é aquela em que Mark filma uma actriz num estúdio vazio, depois de ambos terminarem uma longa jornada de trabalho (ele como assistente de câmara, ela como figurante). Com a promessa da gravação de um fragmento que a pode lançar numa rota de sucesso, a actriz acede em ocupar, à socapa, e sozinha com Mark, aquele espaço onde, durante o dia, ambos executam papéis secundários, remetidos às suas vidas anónimas. Powell capta o acender das luzes do estúdio, as piruetas e saltos da actriz, o bailado de Mark à procura do enquadramento perfeito, como se estivesse perante a coreografia de um musical, mas a leveza do quadro é ensombrada pela pressentida tragédia que se avizinha, por uma nuvem cinzenta que cresce, segundo a segundo, sobre a nossa omnisciente cabeça.

O tempo muda, torna-se um pouco mais amável, quando uma vizinha consegue aproximar-se de Mark, furando barreiras atrás de barreiras com o seu atrevimento gracioso. Mas é sol de pouca dura, não chega para salvar o pobre homem da escuridão que carrega. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, diz a sabedoria popular. Powell vai mais longe: provavelmente nunca. Numa das suas novecentas digressões sobre o ciúme, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, deixa uma nota ao leitor: “às vezes é apenas por falta de espírito criativo que não vamos suficientemente longe no sofrimento”. Uma limitação que ninguém, no seu perfeito juízo, poderá atribuir a Mark Lewis.


Daniel Marques Pinto