Nocturnal Animals 

Tom Ford / 2017



Poucos filmes recentes ou antigos geraram em mim uma rejeição tão pronunciada, epidérmica, radical, do que o primeiro filme de Tom Ford, A Single Man (2009). A rejeição foi estética – os planos estilizados, alguns a preto e branco, outros de mais rica policromia, com a intrusão ocasional da câmara lenta, remetiam para os anúncios publicitários da Martini e Dolce Gabbana – e, por assim dizer, artística ou cinematográfica: afectando seriedade – uma gravidade postiça – o filme sempre derivava para o malfadado efeito da melancolia blasé: tudo afinal não passava de papel de embrulho, tão bonito quanto vulgar e gratuito. O filme foi naturalmente recebido como uma obra-prima, uma daquelas que antes de o ser já o era: a fanfarra usual dos piores críticos de língua inglesa o anunciava antes de termos oportunidade de ver o filme, acto que não pedia a formação de um juízo mas a subscrição de um aplauso geral, na aparente e falsa conformidade que estes fenómenos engendram (cf. Marriage Story (2019)).

Entretanto passou uma década, a irritação esbateu-se, o segundo filme de Tom Ford, Nocturnal Animals (2016), já teve alguma da reacção crítica que o primeiro exigia, e eu nem me dei ao trabalho de o ir ver quando saiu. Vi-o esta semana e foi com surpresa que descobri nele algumas virtudes. Mas primeiro, os defeitos.

O enredo é banal. Estamos novamente perante o síndrome Isabel Archer, o da mulher que confere à sua independência um valor tão exorbitante que casa com o homem errado só para provar (junto da tutora, neste caso a mãe) que é senhora do seu destino. O preço no início não parece muito elevado, comparado com o que seria a cedência inaceitável e cobarde a pressões externas, por mais bem-intencionadas que estas sejam; mas, com o tempo, as dúvidas crescem, o fantasma de uma má decisão manifesta-se com frequência, as consequências são duradouras e o drama assume facetas irremediáveis: não é possível voltar atrás ou recomeçar do zero uma história a meio do último capítulo. Hoje que o divórcio deixou de ser um estigma é mais fácil passar de um pesadelo a outro, criando até algum cepticismo sobre a severidade do primeiro, dado estar-se a viver o segundo.

Para além do enredo, os diálogos também são rigorosamente banais. Não há lugar-comum que não seja citado ou aludido: a mulher que vive luxuosamente e por isso não tem o direito de se queixar; a amiga que lhe recorda a injustiça dessa postura por que no fundo tudo é relativo; o amigo que lhe reitera a sua posição de privilegiada observando que os males do seu mundo são bem menos dolorosos do que no mundo real; a insinuação de que na maturidade todos nos tornamos nos nossos pais; os olhos da protagonista (Susan Morrow interpretada por Amy Adams) têm qualquer coisa de sombrio e triste, e Edward (o ex-marido interpretado por Jake Gyllenhaal) não deixa de o apontar ao espectador, não fosse nos passar despercebido.

Por fim, a linguagem (visual e sonora) do filme é um conjunto de pastiches, começando pelo início à Lynch – a estrada misteriosa, as notas musicais sinistras, a casa assombrada –, passando pelo sofá vermelho (a metonímia do crime) e o suspense hitchcockiano (o thriller excitante, o double plot), terminando na milésima variação da ansiedade do liberal urbano e costeiro em relação ao Sul tenebroso, a experiência tétrica do ser civilizado na América profunda.

Porém, tendo tudo isto em conta, o filme possui duas virtudes, uma das quais bastante salutar.

A expressão característica – aparentemente invariável, de filme para filme – da carreira da Amy Adams e do Jake Gyllenhaal – something very serious had just happened / is about to – funciona ou, por alguma razão, funcionou comigo: eu acreditei nos seus rostos e, por isso, na sua história. O seu desempenho convincente, e o de Michael Shannon, que também aparece em boa forma, não resgataram o filme da banalidade mas conferiram-lhe outra textura, mantiveram aceso o meu interesse pelo enigma.

Mais importante ainda, a realização, com todos os seus pastiches e referências, em vez de afectação exibe um desavergonhado pretensiosismo (cinéfilo), sempre uma qualidade apreciável nas primeiras obras de artistas à procura de uma voz. Não fiquei impressionado, mas fiquei curioso.

Irei ver o próximo filme de Tom Ford. No cinema.



Pedro Ramires