Les Choses de la Vie 

Claude Sautet / 1970



No livro Amis & Son: Two Literary Generations, Neil Powell cita uma carta de Kingsley Amis a Philip Larkin. E do que tratava a correspondência entre um prosador de renome e um dos mais reputados poetas ingleses do séc. XX? Des choses de la vie: ‘The trouble with marriage, my dear little fellow’, Kingsley wrote to Philip on 9 February, ‘is not that you are too much on your own with your wife, but that you are too much alone with your mother-in-law, and your father, and your father-in-law, and your mother, and your mother’s friends, and your father-in-law’s friends, and your father’s friends, and your mother-in-law’s friends.’ No compromisso de longo prazo, o bric-à-brac constitutivo de todas as relações não se resume a espinhosas negociações, altivos chegas-para-lá, transbordantes impaciências, obsequiosos apetites, desejos sufocantes, negligências imperdoáveis, diálogos infrutíferos, traições fatais, esforços inconsequentes, emoções defraudadas, presenças ausentes e ausências por de mais presentes, amantes famintos de amor, e um ou outro dia plácido e feliz – não, o compromisso de longo prazo também acarreta incontornáveis obrigações que ninguém subscreveu. Por outro lado, um dos elementos do casal pode dar por si a fantasiar sobre o que sentirá mais falta caso se quebre o feitiço com a sua futura ex-mulher (ou futuro ex-marido): da própria ou dos passeios de barco com os divertidos amigos dela; da própria ou dos agradáveis jantares realizados pela família dela no acolhedor chalé dos seus pais; da própria ou dos momentos a três, a quatro, a cinco, com os filhos, naquele então penoso fim de tarde que o tempo pintou de nostalgia: She was to experience this sadness many times, this chronic sadness of late Sunday afternoon, when the couples had exhausted their game, basketball or beachgoing or tennis or touch football, and saw an evening weighing upon them, an evening without a game, an evening spent among flickering lamps and cranky children and leftover food and the nagging half-read newspaper with its weary portents and atrocities, an evening when marriages closed in upon themselves like flowers from which the sun is withdrawn, an evening giving like a smeared window on Monday and the long week when they must perform again their impersonations of working men, of stockbrokers and dentists and engineers, of mothers and housekeepers, of adults who are not the world’s guests but its hosts. Couples (John Updike).

É esta ambivalência entre o acto libertador e os seus custos que domina e perturba um instável Michel Piccoli em Les choses de la vie. O filme consiste na contemplação das suas hesitações e das inseguranças que elas geram. Valerá a pena, a mudança? Depois de, nos anos 60, ter aturado com um estoicismo notável as oscilações de humor e os intoleráveis caprichos de Brigitte Bardot, Michel Piccoli começa os anos 70 naturalmente agastado pela necessidade de fazer uma escolha impossível. Les choix de la vie: Lea Massari ou Romy Schneider? Numa das cenas mais cómicas do filme, o pai de Pierre (Piccoli) fica impressionado com a amante do filho (‘formidable’), embora faça notar que a ex-mulher, ou mulher em vias de passar a ex-mulher, também não era má. A indecisão, a confusão sentimental, a tensa irresolução de Pierre é compreensível. Lea Massari ou Romy Schneider? Quem não claudicaria, quem não contemplaria as estrelas, procurando uma resposta?

Les choses de la vie é um bom filme – mesmo quando parece não passar de uma boa desculpa para filmar a beautiful people fazendo as coisas que as pessoas normais fazem: em vez de amuos e banhos de sol no terraço da Casa Malaparte, previsíveis discussões no carro (quem escolhe a estação?) e à mesa de restaurantes de província, a balbúrdia e os escrúpulos da classe média – e Claude Sautet um realizador despretensioso e subtil (cf. Un Coeur en Hiver). Porém, quando assisto aos seus filmes gostaria de ouvir, por vezes, o chape de Ícaro nas águas do mar: o fragor da ousadia, a audácia, o pretensiosismo até, o descaramento estilístico de quem se atreve a falhar. A distância que o realizador impõe entre ele e as suas personagens, dando-lhes espaço, respeitando a sua calada dor, demonstra uma contenção romanesca que poderia e deveria ser maculada pelo risco. É difícil ver Les choses de la vie e a certa altura não nos perguntarmos o que Godard ou Antonioni ou Zurlini teriam feito com Piccoli, Lea Massari e Romy Schneider? Uma obra-prima, talvez. Ou então alcançado um absoluto falhanço. Certamente teriam realizado um filme cuja aspiração fosse tentada pelo falhanço absoluto, na procura do absoluto sucesso. A mediania agradável possui o seu charme, mas o encanto das estrelas é viverem lá no alto, no céu, a brilhar.


Pedro Ramires