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El desencanto

Jaime Chávarri / 1976



Por pouco juízo que tenhamos, por mais aventura que nos corra nas veias, o que queremos para a nossa vida não é, nem de perto nem de longe, aquilo que desejamos encontrar na ficção, mesmo que esta se alimente sobretudo do real, de histórias verdadeiras. Podemos gostar de serões sem sobressalto, debaixo de uma manta antiga, e ter um fraco por histórias de espiões ou por relatos de escaladas em neve. E não será assim tão estranho se ouvirmos um furioso punk rock enquanto comemos, de pantufas, os biscoitos da avó. Há até quem cumpra a lei de todos os livros, e se imagine de lábio torto e chefe da máfia, num filme de Scorsese. Isto acontece nos grandes temas mas também em assuntos domésticos, de pequena escala. No documentário Bernardes, uma neta do arquitecto brasileiro Sérgio Bernardes, reconhecendo o lado genial do avô, não deixa de sublinhar: “mas vai ser filho dele, vai ser neto dele, vai ver como é que é”. De livre vontade, ninguém alinha nisso, claro, embora todas as atribulações da vida pessoal de Sérgio Bernardes sejam, no filme, um magnífico substracto para a história crescer e ganhar corpo. Como escreveria tolstoi1828, na sua conta de instagram: “Todos os documentários de famílias felizes se assemelham. Nada supera, na sua beleza particular, um documentário sobre uma família de chanfrados”. E nessa competição de doidos, será difícil vencer os Panero.

Rodado em 1974, ainda com Franco na vizinhança do poder, e distribuído em 1976, já depois do caudilho ter ido desta para melhor, El desencanto foi um dos últimos filmes espanhóis a sofrer cortes dos censores do regime franquista, que não viram com bons olhos a alusão a episódios de cariz sexual numa cadeia do Estado. Num punhado de quadros a preto e branco, o documentário acompanha e ouve (trata-se sobretudo de um cinema à escuta) os quatro elementos da família próxima de Leopoldo Panero, um poeta castelhano de razoável notoriedade. Em certa medida, é em torno de Leopoldo Panero que o filme gravita, embora o patriarca nunca fale (pelo motivo mais forte: já não era vivo) e em nenhum momento se reproduzam imagens dele, o que contribui para convertê-lo num fantasma que nunca dá descanso aos que lhe sobreviveram.

Bastam alguns minutos para o espectador perceber que os Panero não são uma família normal. E não só pela intimidade que desenvolvem com a câmara, pois de perto, como lembra a canção de Caetano, ninguém é normal. De todas as idiossincrasias dos Panero, duas se destacam: uma excentricidade ora leve, ora funda, e um talento, de ordem quase literária, para verbalizar essa excentricidade. El desencanto teria sido um outro filme - forçosamente mais pobre, uma vez que Chávarri arrisca pouco na estrutura e na matéria visual - se eles não se tivessem revelado os mais fabulosos tagarelas da Península Ibérica. Quando relata o momento da morte do seu marido, Felicidad Blanc recorda que, nesse dia, estreava um vestido, e essa atenção ao detalhe, o amor a esses pequenos desvios, conquista-nos. Forçada pela violência das circunstâncias a abandonar o seu papel de mulher recatada de boas famílias, conformada com o papel que a sua geração lhe reservava, para passar a cuidar sozinha dos filhos, Felicidad Blanc mostra-se, à data, uma personagem com algumas contradições, mas aparentemente equilibrada, serena. Um feito extraordinário se atendermos à prole que lhe coube em sorte: Michi, o diletante pessimista, incapaz de se fixar num labor ou num prazer; Juan Luis, fetichista e bebedor sem travão; Leopoldo Maria, louco e maldito, fascinado pelas margens, e poeta radical. Devem ter dado trabalho à pobre Felicidad, que não só foi obrigada a lidar, durante anos, com todo aquele desgovernado fogo de artifício, como teve de ouvir das boas no documentário. No fragmento mais tenso, filmado num banco de rua, Leopoldo Maria acusa a mãe de ter tido vergonha das visitas que lhe fez à penitenciária, e culpabiliza-a pelo internamento a destempo num hospital psiquiátrico (numa entrevista à TVE, Leopoldo Maria Panero fala da psiquiatria como “el castigo de la estrañeza”).  Quando esteve no Porto, em 2017, o realizador Javier Chávarri contou que nunca ninguém da família se mostrou demasiadamente incomodado com as denúncias e confidências que aparecem na versão final do filme, com excepção de um momento em que Michi assume seguir uma tradição de alcoolismo que lhe teria chegado quer do lado paterno, quer do lado materno, afirmação que Felicidad Blanc contestou (segundo ela, na sua família original bebia-se pouco). Perante a crueza de certos depoimentos e conversas, não deixa de ser bizarro que tenha sido esse o único reparo importante. Como se alguém se queixasse de um ventinho nas costas, a meio de um terramoto.

Em 1994, foi lançado um novo (e mau) filme, recuperando as personagens masculinas duas décadas depois. A loucura e a tragédia, que na juventude são uma marca de vida, transformam-se, com o envelhecimento, em graves, tristes e irremediáveis prisões. O tentador projecto de sequela deveria ter ficado na gaveta, ou, pelo menos, ter sido entregue a um realizador com outra subtileza. Vinte anos são uma eternidade, numa família que cumpre mais noites do que dias. Felicidad Blanc morrera em 1990 e todos os seus filhos haveriam de morrer nas décadas seguintes. Nenhum deixou descendência. Finou-se a maldição dos Panero.

No documentário dos anos 70, Michi confessou que nunca experimentara um verdadeiro desencanto porque vivia as coisas do mundo como um espectador. Pelo menos ao ver-se no filme, deve ter-se sentido em casa.


Daniel Marques Pinto