Black Book 

Paul Verhoeven / 2006 



No final, é difícil conciliar duas sensações contraditórias. Por um lado, é inevitável concluir que estamos perante um mau filme, qualquer que seja a perspetiva adoptada na avaliação do mesmo. Por outro, e não sem alguma perplexidade, temos consciência de o ter visto com prazer e até damos por nós a querer revê-lo. Acabamos por concluir que ao longo do visionamento fomos vítimas de uma corruptela ocular que consistiu em abstrairmo-nos dele e focarmo-nos nela. É esse o truque de Black Book (2006): não as alardeadas qualidades do famosíssimo Paul Verhoeven, mas a feliz constância com que a anónima Carice van Houten aparece no ecrã: ela atrai e eleva a nossa imaginação para lugares que esta pandemia nos tinha levado a julgar não existirem mais.

Enquanto dá aulas num kibbutz em Israel, mais de uma década após o fim da II Guerra Mundial, ao ser reconhecida e ao reconhecer uma das turistas do local (Ronnie, interpretada por Halina Reijn), Rachel Stein (Carice van Houten) é surpreendida por aquela estranha melancolia que nos acomete quando um esquecido e radicalmente diferente passado nos invade o presente:  It is very hard to remember that events now long in the past were once in the future, escreveu Maitland – e parece ser nisso que Rachel está a pensar quando o filme nos lança num longo flashback para a Holanda ocupada pelos nazis, antes de as duas mulheres se terem conhecido.

A partir desse momento, e através da história de Rachel, o espectador segue as peripécias da resistência holandesa – as aventuras perigosas, os jogos de sombra, as traições e infiltrações, os aparentes sucessos e os cruéis fracassos – numa narrativa cujo enredo (incontáveis plot twists) e personagens cartoonish desafiam a nossa credulidade para lá de qualquer tolerância, filmada poucos furos acima do realismo televisivo de cartão de uma série de época da BBC. Por exemplo, o trágico e infame destino das colaboracionistas durante a l'épuration do pós-guerra por vezes é tratado com a mesma carga dramática de quem filma uma incursão do Indiana Jones no desfile de Carnaval de Notting Hill.

E, contudo, nada disso é suficiente para nos fazer abandonar o filme, pois Carice van Houten sempre reaparece e é impossível não acreditar no seu sorriso infantil, na sua sedutora ingenuidade, na paixão alegre pela vida que nela milagrosamente persiste nos momentos mais dramáticos, na sua voz quando canta, e no seu corpo quando dança, clássicos dos anos trinta como A Hundred Years from Today e Ich bin die fesche Lola, no seu infinito engenho e graça. A cena mais irrealista (de um irrealismo a roçar o cómico) do filme, em que ela se lança de uma varanda, é também a mais encantadora: não pela magia do cinema, mas por que com ela nos deixamos cair numa ilusão feliz.

Mas o truque de Paul Verhoeven é uma pobre e convencional fantasia, que se estilhaça ao mínimo contacto com elementos carregados de uma seriedade que lhe é estranha. A amarga nota final deve-se à incursão de um desses elementos.

Depois de escapar com vida à alucinada perseguição dos nazis, Rachel Stein e a sua nova família parecem viver felizes e em paz num kibbutz no meio do deserto; mas esse deserto fica na Palestina – e as sirenes de alarme com que o filme termina lembram-nos que ela escapou a Hitler, mas não escapou à guerra. Essa ilusão nenhuma actriz – nem mesmo Carice van Houten – é capaz de criar.


Pedro Ramires