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A Cidade onde Envelheço 

Marília Rocha / 2016



Algumas semanas depois de chegar a Paris, em Junho de 1963, José Mário Branco, ainda mal instalado na capital francesa, dormindo onde calha, percebe que a única forma de não sucumbir à violência do corte abrupto com as pessoas e o território que conhecia e amava, passa por viver naquele novo lugar como se ali fosse ficar para sempre: organizando rotinas, casando, tendo filhos, fazendo amigos, exercendo as suas paixões. Ao mesmo tempo, embora consciente das contradições da sua estratégia, decide deixar “o leite ao lume”, prometendo a si mesmo que no primeiro minuto em que seja possível regressar a Portugal, ele regressará. E será esse plano de resistência e esperança que atenuará as dores de crescimento de um notável compositor popular, durante os quase onze anos de exílio até ao 25 de Abril de 1974. Mas nem de todos os tormentos se livra José Mário Branco. Nalgumas noites de insónias, sobressaltando-se na cama ao tentar reconstruir o mapa do Porto na sua cabeça, ele acordará Isabel Alves Costa, a sua primeira mulher, com perguntas que alguém que tenha nascido com o Google Maps no bolso nunca logrará entender como aflições de monta: “a terceira à direita, na rua de Cedofeita, quem vem da Carvalhosa para Carlos Alberto, é a Miguel Bombarda ou a Rua do Breyner?”

Mudam-se os tempos, mudam-se muitas das vontades. Mas nunca todas. A emigração portuguesa do séc. XXI pode não ter a dimensão política da emigração dos anos 1960 nem quebrar tantas alianças com os lugares de origem como ocorria no passado, mas de uns quantos antiquíssimos dilemas ninguém escapa, sobretudo do mais difícil de varrer para debaixo do tapete: ficar aqui ou regressar? E sendo hoje tão fácil e rápido esse regresso (há mil rotas de volta, a preços módicos, e uma democracia defeituosa mas viva, à espera), a pergunta nunca desaparece de cena. Até porque, com tantos canais tecnológicos a ligar terras e mares, ninguém sai verdadeiramente de lado nenhum. O que também dificulta que alguém chegue com os dois pés a algum lado. O leite que José Mário Branco deixava ao lume, está agora sempre a ferver.

Quando, depois da crise financeira de 2008, em especial durante 2011, umas centenas de portugueses emigraram para o Brasil optimista daqueles anos, as suas ambições eram as mesmas que os seus antepassados haviam levado nos navios (experimentar uma vida melhor ou, no mínimo, melhorzinha) mas vários deles carregavam na mala respeitáveis canudos: licenciaturas, mestrados e habilidades diversas para escapar ao destino. Seria uma simplificação grosseira, apresentar a última vaga importante de emigração portuguesa para as cidades brasileiras como sendo constituída apenas por cidadãos com sólidas habilitações académicas ou por jovens urbanos e cosmopolitas, em busca de um intervalo tropical no seu percurso de europeus circunspectos, mas o certo é que esse contingente terá sido pelo menos responsável por uma pequena mudança no modo como os brasileiros olham para o emigrante português, e simultaneamente terá contribuído para alterar a percepção dos portugueses em relação ao Brasil, transformando-o num país desejado por jovens adultos que levam a sério o seu trabalho e não apenas no lugar ideal para quinze dias de praia e caipirinhas. O trânsito migratório entre Portugal e Brasil, num e noutro sentido, sempre foi acompanhado por estereótipos nada benévolos: o português de bigode, a portuguesa de bigode, os dois vendendo pão; o brasileiro brinca-na-areia, a brasileira folgada. Alguns destes equívocos, e outros piores, ainda persistem, mas não ocupam o espaço todo. “A cidade onde envelheço” nasce num território novo, mais livre e desafogado, e é por ele que se interessa.

O filme, como projecto antropológico e cinematográfico da realizadora Marília Rocha, principia quando esta conhece Francisca Manuel, uma portuguesa temporariamente a viver em Belo Horizonte. A ideia de tratar o tema da emigração jovem de Portugal para o Brasil vai tomando forma e, pelo caminho, Francisca Manuel recebe a companhia de Elizabete Francisca, escolhida através de um casting e sem currículo como actriz de cinema. Pensado como um filme de ficção, “A cidade onde envelheço” rouba os seus elementos fundamentais à linguagem do documentário e é com eles que ganha vitalidade.

A história é simples de contar e começa quando Francisca (personagem com o mesmo nome da actriz), que vive e trabalha em Belo Horizonte há algum tempo, acolhe, em sua casa, Teresa, uma amiga de infância recém-chegada à cidade e com quem já não priva há uns anos valentes. Teresa revela-se extrovertida, fala com a boca inteira, com as mão e as sobrancelhas, e faz amigos nos botecos, nas festas, em todo o lado. Francisca aparenta ser mais reservada e mostra-se, ao ínicio, um pouco preocupada com a divisão do espaço doméstico e com a presença de uma quase desconhecida no seu quotidiano. Enquanto uma se vai afastando sentimentalmente de Belo Horizonte, a outra vive empolgada com a novidade, com a vibração de um mundo desconhecido e mais vasto do que aquele onde se movia, expondo-se às suas doçuras e às suas crueldades, e descobrindo, a custo, que ninguém pode andar longe, à aventura, sem perder alguma da protecção da casa de partida.

Nada do que se passa no filme é invulgar ou insólito, e a opção de filmar com um guião aberto à improvisação, coloca as atrizes numa posição de fragilidade tremenda que uma realizadora displicente teria dificuldade em capturar sem enfraquecer as personagens, mas que Marília Rocha explora em favor do filme, com delicadeza e intensidade. A câmara está quase sempre próxima das atrizes, não é contemplativa, mistura-se com elas, tem a temperatura do corpo e um apetite pela luz natural que entra pelas janelas. Francisca Manuel e Elizabete Francisca são óptimas a emprestar uma dimensão física aos planos e subtileza aos gestos mais íntimos. Provavelmente pelas características dos seus trajectos profissionais (Elizabete Francisca é bailarina e coreógrafa, e Francisca Manuel tem formação em artes visuais), elas são menos brilhantes no texto, e os diálogos improvisados sofrem aqui e ali dessa impreparação. Numa das cenas, depois de uma conversa importante entre as duas, Teresa faz uma pequena dança batendo com os talheres na parede, como forma de combater a sua própria ansiedade, e só aí, e não durante o diálogo, entendemos completamente a relevância daquele momento e a cumplicidade entre elas. O que se ganha com essa forma de filmar sem rede, sem as falas fechadas no papel, traz contudo mais vantagens do que problemas. Um filme tão livre com as arestas polidas perderia a sua força. Marília Rocha tem razão. Assim percebe-se melhor as incertezas que acompanham tanto quem fica como quem regressa.

Ninguém dorme completamente descansado, nem num só lugar, qualquer que seja a cidade onde se envelheça: Paris, Porto, Belo Horizonte ou Lisboa. Talvez também nas outras.


Daniel Marques Pinto